29 de set de 2012

A guerra do Google

No dia em que a Justiça brasileira mandava prender (e logo depois libertar) o diretor-geral do Google no Brasil, o "Financial Times" publicou matéria mostrando como as ações da empresa de tecnologia americana haviam atingido seu maior valor em cinco anos graças ao entendimento do mercado de que ela está bem posicionada na era dos tablets.

Mas muito além da tecnologia e dos mercados financeiros, a empresa da Califórnia está hoje na vanguarda de outra grande batalha contemporânea: entre os que querem cercear e os que querem preservar as liberdades na rede mundial.

É uma questão difícil, determinante dos nossos tempos. E ainda bem que a web segue gerida privadamente nos EUA, se não, pelo que vemos todo dia, ela já seria muito menor, menos livre e menos relevante.

O mundo antes chamado virtual tornou-se real.

O YouTube, a TV mundial que o Google comprou em 2006 por US$ 1,65 bilhão (na época, considerado uma fortuna, mas na verdade uma ninharia), tornou-se uma espécie de Rede Globo mundial de alta repercussão e abrangência crescente.

É uma fenomenal força transnacional privada gerida da sede em Mountain View, Califórnia, um dos lugares mais liberais do mundo. Graças ao YouTube podemos ver os massacres diários na Síria, mesmo com a proibição de jornalismo independente no país. Basta um celular conectado à web para derrotar a brutal censura da ditadura síria. E isso tem um valor inestimável.

O lema do Google, "do no evil" (não faça o mal), parece legítimo ao menos na sua firme defesa da liberdade de expressão, esse conceito tão importante nos Estados Unidos, mas mal compreendido e rechaçado em várias partes do mundo.

Como na recente explosão de violência nos países muçulmanos após um abominável vídeo anti-islâmico e ofensivo, mas nada representativo, ter sido explorado cinicamente por extremistas para fomentar ódio ao Ocidente. Vídeo que um juiz brasileiro também mandou o Google tirar do YouTube em nove dias.

Mas não foi por isso que o diretor-geral do YouTube brasileiro foi preso. Fabio Coelho passou algumas horas detido porque carregaram no YouTube vídeo considerado ofensivo contra candidato do PP a prefeito de Campo Grande (MS), Alcides Bernal. Um juiz eleitoral determinou a prisão de Coelho e a retirada do vídeo. Entrei agora no YouTube, e o vídeo segue lá, contando um suposto episódio da vida pessoal de Bernal.

Como devemos reagir a isso? Quem deve decidir se o material fica ou não?

Enquanto no século passado era possível identificar, responsabilizar e coibir com mais facilidade os autores de peças difamatórias ou promotoras de ódio de grande circulação, hoje é muito mais difícil.

O Google defende que o responsável pela postagem do conteúdo deva responder por ele, mas, expedida uma ordem judicial, a empresa segue a determinação da Justiça. Nos EUA, ao contrário do Brasil, um juiz não aceitou pedido para a retirada do vídeo anti-islã.

Será uma batalha seminal do século 21, entre os que querem controlar o fluxo de informações e cercear liberdades e os que querem fomentá-las. É um dilema típico de nossa era, onde os dois lados têm razão. E é uma batalha já travada diariamente pelo globo, dos combates da guerra civil síria aos embates eleitorais de Campo Grande.

Mesmo sabendo dos riscos, prefiro ficar do lado da liberdade irrestrita. Por mais que ditadores e aprendizes de ditadores tentem impedir, estamos entrando na era da transparência total, consequência da era da comunicação total.

E isso parece mais esclarecedor do que deturpador, mais depurador do que redutor.

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