2 de dez de 2015

Frases racistas postadas nas redes sociais viram outdoors pelo Brasil


Frases racistas postadas nas redes sociais --diante da falsa sensação de anonimato-- ganham vida nas ruas de Porto Alegre, Rio de Janeiro (RJ), Americana (SP), Vila Velha (ES), Feira de Santana (BA) e Guarulhos (SP). Estão estampadas em outdoors próximos a residência de seus autores, como parte da campanha "Racismo virtual: as consequências são reais" promovida pela ONG Criola, que atua na defesa e promoção de direitos das mulheres negras.

Com o auxílio da empresa de publicidade w3Haus, a ONG conseguiu rastrear o local de origem das mensagens racistas a partir da ferramenta GeoTag. Na sequência, mediante a concessão de espaços publicitários na região, foram criados os outdoors com as frases em destaque, mas preservando a identidade dos autores. "Não temos intenção de expor ninguém, tampouco que a ação responda com violência uma violência", apontou Jurema Werneck, 53, integrante da ONG Criola.

Segundo ela, o objetivo da ação é conscientizar as pessoas para que reflitam sobre as consequências dos comentários racistas publicados nas redes sociais. "Será que um comentário na internet causa menos danos que uma ofensa direta? Para quem posta, pode até ser. Mas para quem sofre, o preconceito nunca é só virtual", destaca a página oficial da ação, que nasceu após o episódio envolvendo a jornalista da TV Globo Maria Julia Coutinho.

Em julho de 2015, a apresentadora conhecida como Maju foi vítima de comentários racistas tanto no Facebook como no Twitter, após a inclusão de uma foto dela na página oficial do Jornal Nacional. Em outubro, a vítima da vez foi a atriz global Taís Araújo, que recebeu ofensas racistas por meio de comentários postados em sua página no Facebook. Caso similar aconteceu com a atriz Cris Vianna no último final de semana (29). 

"Infelizmente, o ataque à Maria Julia não foi o primeiro nem vai ser o último. Além de casos com negras famosas --como Thaís Araújo e Cris Vianna--, existem milhares de desconhecidas que assim como eu são vítimas de racismo dentro e fora da internet", relata Jurema, que diz que a campanha selecionou, incialmente, 50 casos, que devem virar outdoor nos próximos meses. "Há uma quantidade imensa de ofensas na rede e seria possível inclusive encontrar uma para cada uma das 5.600 cidades brasileiras. Se salvaria apenas aquelas que não têm acesso à internet."

A campanha, como explica Jurema, é um alerta ao autor de que não existe anonimato na internet. "Se a ONG consegue localizá-lo, a polícia também poderia fazer o mesmo. Nossa ação mostra que é fácil detectar a origem e levar o comentário para perto da pessoa". Ainda assim, segundo ela, a proposta não é "encher a cadeia de racistas". "Mas alertar para a dor, a humilhação e a revolta que esse ato criminoso causa para as vítimas, independente se ele foi cometido na rede ou no mundo real. Ou seja, as consequências também podem ser as mesmas."

Desde que o primeiro outdoor foi lançado, em julho, a campanha já alcançou algumas conquistas, como aponta a integrante da ONG Criola. "Conseguimos chamar a atenção de muitas pessoas e mobilizá-las em prol a luta contra o racismo. Recebemos mensagens de apoio, algumas poucas críticas de certos incomodados, além do contato de vítimas em busca de informações sobre como denunciar os ataques". "Nossa expectativa é que em um médio ou curto prazo a polícia e o Ministério Público atuem mais ativamente nos casos de racismos cometidos nas redes sociais e que as incidências se tornem raras."


Larissa Leiros Baroni
Do UOL, em São Paulo